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A vez do licuri: fruto que não é tão valorizado no interior virou 'gourmet'

"Eu sou eu, e licuri é coco pequeno". Se você mora na Bahia, com certeza já ouviu essa expressão que, traduzida, seria um “eu me garanto” ou “eu sou mais eu”. O fruto, tão importante para a economia em algumas regiões da Bahia, e ao mesmo tempo tão desconhecido nacionalmente, pode até ser pequeno no tamanho, mas com certeza é grande em seu potencial.
O licuri, nicuri, dicuri, adicuri, ouricuri, alicuri, licurizeiro, urucuri, dentre outros nomes atribuídos à palmeira nativa da Caatinga “Syagrus coronata”, é produzido nas regiões da Bacia do Jacuípe e do Piemonte da Diamantina e virou uma estrela na praça de alimentação sustentável montada na Semana Latino-Americana e Caribenha sobre Mudança do Clima, sediada em Salvador. 
São 120 mulheres de 30 comunidades responsáveis pela produção do vegetal que pode ser transformado em diversos produtos. Somente as cidades da Bacia do Jacuípe têm uma média de produção de 200 toneladas de licuri por ano e os locais garantem que a capacidade da palmeira não é completamente explorada. Do licurizeiro, a Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (Coopes) consegue fazer diversos produtos, como a própria amêndoa torrada, que ganhou três versões: a natural, a salgada e a adocicada com rapadura, além do óleo e do azeite extravirgem ou prensado a frio de licuri, da cerveja e do licor. Outros produtos como cocada, arroz, farofa, paçoca e até mesmo hidratante e óleo corporal, por exemplo, também podem ser produzidos com a amêndoa.
A Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (Coopes), que montou um stand na praça de alimentação da Semana do Clima, possui 200 cooperados. Durante o período de coleta, entre janeiro e maio, há a compra na mão das cooperadas, que são as quebradeiras de licuri.
O licuri deve ser seco ao sol durante uma semana e, para retirar a amêndoa, há a quebra do fruto com uma pedra. As amêndoas são retiradas, selecionadas, ensacadas e levadas à cooperativa, onde são congeladas ou torradas. Os produtos do licuri são produzidos sem conservantes ou agrotóxicos.
“A palmeira é uma planta nativa que é importante porque é encontrada naturalmente na natureza e é oriunda do agroextrativismo, que é um sistema com princípios ecológicos, sociais, ambientais, econômicos, políticos, culturais e éticos.. Então é importante porque as famílias, a maioria em vulnerabilidade social, fazem aquele manejo natural e podem comercializar na safra e ajudar na sua renda. Elas ainda preservam o patrimônio natural da Caatinga”, disse Renata Silva, gerente comercial da Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina. 
A cooperativa comercializa a amêndoa para outras cidades do Brasil, como São Paulo, Curitiba, Brasília e uma cidade de Minas Gerais. O licuri também é enviado para diversos restaurantes de Salvador. A Coopes faz parte de uma rede de cooperativas que trabalham em parceria. O licuri é fornecido, por exemplo, para a Bahia Cacau, que faz um bombom com licuri dentro, que também estava disponível na Semana do Clima. Os produtos comercializados no stand da Coopes na Semana do Clima variaram de R$ 10 a R$ 60, são fontes de energia e de nutrientes como zinco, vitamina B5, cálcio e ferro.
“A receptividade do produto é maravilhosa. Temos um mercado bom e, quanto mais apresentamos o licuri, mas os clientes se interessam na matéria-prima. Inclusive existem diversos pratos da alta gastronomia que possuem o licuri como ingrediente, como, por exemplo, uma farofa de licuri e um drink feito com o fufu, que é a paçoca do licuri”, contou Renata Silva.
Gabriela Dantas, que trabalha no restaurante Ar Gastronomia, localizado no Rio Vermelho, é uma das pessoas que comercializam o licuri com a cooperativa. “Nosso chef de cozinha é da região da Caatinga e tem uma intimidade com os produtos. Os turistas ficam bastante encantados e sentem uma diferença muito grande da culinária com o licuri porque eles não têm nenhuma referência próxima. O óleo de licuri, por exemplo, tem uma sutileza muito grande e fica muito bom”, disse.
O fruto também tem uma questão afetiva muito forte para as pessoas da Caatinga. É o caso da vendedora e criadora de abelhas sem ferrão Anita dos Santos, de 59 anos. Ela conta que, na sua infância, além de brincar com seus amigos, também se juntava com eles para comer o licuri. 
A gente vai no chão e encontra os maduros. Pegamos uma pedrinha, colocamos ela no chão, pegamos outra pedra, quebramos o fruto e tiramos a amêndoa. A gente juntava tudo em uma vasilha e comia ali mesmo. Tem gente que até cozinha para ser mais fácil na hora de quebrar, mas a gente comia do pé mesmo”, lembra.
O "rosário de Licuri" lembra mesmo um rosário cristão, de orações. Uma diferença os separa, no entanto: enquanto no rosário cristão as contas significam orações, o rosário de Licuri é comestível. O colar fica no pescoço e, de lá mesmo, as pessoas comem a amêndoa. "É um gostinho especial. As pessoas queriam o tempero do suor de quem ia colher o licuri. Isso era muito importante na nossa infância, era a nossa Cacau Show", brincou uma participante da Semana do Clima que não quis se identificar.

O Licuri*:
Características da espécie
O licuri é fruto do liculizeiro, uma palmeira da Caatinga. Seus pequenos e abundantes frutos que quando maduros apresentam polpa que variam do amarelo claro ao laranja. O licuri tem cheiro e sabor parecidos com o coco seco mais comum, sendo um pouco mais duro e fibroso.
Área de produção
Regiões da Bacia do Jacuípe e do Piemonte da Diamantina, na Bahia.
Produtores
120 mulheres de 30 comunidades.
Coleta
Ocorre em caráter extrativista. A safra é entre janeiro e maio, havendo uma pequena produção ao longo dos outros meses. São cortados os cachos do fruto, colocado em cestos e levados para as residência das licurizeiras.
Processamento
O fruto é seco ao sol por cerca de uma semana seguido da quebra do fruto com uma pedra, retirada da amêndoa, seleção das amêndoas adequadas, ensacamento e por fim é levado à Cooperativa onde é congelado ou torrado.
Manejo
A adubação ocorre apenas pelas palhas secas e frutos que cobrem o solo. Há alguns cuidados como a retirada manual de cupins quando são identificados. Outro animal que preda o fruto é o morotó, como é conhecida a lagarta de um besouro que põe ovos no fruto. O morotó também faz parte da cultura alimentar local.Fonte/correio da Bahia


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