sábado, 27 de julho de 2019

Aula da saudade: alunos de escola pública se encontram 50 anos depois

Os 32 idosos estudaram na mesma turma do Colégio Estadual João Florêncio Gomes, que deu lugar ao Colégio da Polícia Militar, na Ribeira
A todo momento eles se entreolhavam como se se esforçassem para trazer algo à memória. “Você se lembra de mim?”, era a pergunta que mais se ouvia na porta de um dos atuais prédios do Colégio da Polícia Militar, na Avenida Beira Mar, Ribeira. Era ali que, até recentemente, funcionava o Colégio Estadual João Florêncio Gomes. O JFG, como é chamado carinhosamente por aqueles quase septuagenários, era o motivo para que tantos idosos estivessem juntos.
No total, 32 alunos que concluíram o 3ª Ano Colegial em 1969 fizeram questão de participar do café da manhã marcado para comemorar os 50 anos de formatura da turma. Todos têm hoje entre 67 e 70 anos. Alguns ali tinham cinco décadas que não se viam. Juntos, eles participaram de uma aula magna para simbolizar o momento histórico.
(Evandro Veiga)
Gilson Leal guarda até hoje fotos da turma
(Acervo pessoal)
Gilson Leal guarda até hoje fotos da turma
(Acervo pessoal)
Em um passeio pelas dependências do colégio, os antigos alunos relembraram o quanto o Florentino Gomes lhes serviu de base para uma vida inteira. “Foi essa escola que nos deu régua e compasso. É muito bom estar aqui relembrando o lugar e as pessoas. Um povo sem memória não tem história”, concordou Genésio Seixas Souza, de 68 anos, que enveredou pela vida acadêmica das letras vernáculas.
Genésio Seixas Souzae é professor doutor em Letras
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)
Estamos falando de estudantes de um tempo que as escolas públicas tinham um ensino considerado tão bom ou melhor que as particulares. Não à toa, eles se mostraram muito orgulhosos de terem superado na época instituições como os colégios Antônio Vieira e Maristas.
“A aprovação da nossa turma no vestibular foi maior do que as particulares”, lembra o hoje economista Carlos da Silveira, o Carlinhos
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)
Todos os ex-alunos usavam um cordão com o distintivo da instituição no pescoço e as iniciais JFG. Um dos organizadores do café da manhã histórico, Carlinhos reclamou que o grande escudo que tinha na frente do prédio foi retirado. “Eles poderiam ter mantido o escudo na fachada. Talvez valesse a pena rever isso e fazer uma homenagem à instituição pioneira deste lugar”, sugeriu Carlinhos.        
Professora
O mais impressionante nem foi o encontro da turma 50 anos depois, mas a presença de uma das professoras da época. Argelina Barreto Coutinho, de 84 anos, professora de Literatura e Língua Portuguesa, era cumprimentada com emoção por todos. Revivendo aqueles tempos, ela comandou a aula magna em que fez a interpretação do poema Tecendo e Manhã, de João Cabral de Melo Neto.
Argelina Barreto Coutinho, de 84 anos, era professora deles na época
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)
“A senhora se lembra de mim? A senhora era a única pessoa que me chamava de Eduardo José”, disse o engenheiro Eduardo José de Almeida Pottes, 67 anos, segurando com firmeza a mão da professora. Professora Argelina era rigososa. Aliás, “muito rigorosa”, corrigiu Carlinhos. “Ela botava pra quebrar”, disse. Estava o tempo inteiro na escola. “Eu vivia aqui! Chegava de manhã e saía de noite”, lembra.
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)
Argelina ficou conhecida por implantar práticas pedagógicas do ensino superior no ensino científico, como também se falava na época. Ninguém melhor do que ela e seus alunos para explicar porque uma escola pública conseguia se diferenciar a ponto de ser uma das mais exaltadas da cidade. “Compromisso! Os professores não misturavam os problemas com a nossa missão. Nosso papel é superar tudo para que eles aprendam”, ensina a professora.  Fonte/Correio24horas.

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