terça-feira, 14 de maio de 2019

'Abraço gigante' e lembranças de Irmã Dulce marcam dia de celebração na Osid

Funcionários e devotos receberam com alegria o anúncio da canonização de Irmã Dulce
Durante todo o dia desta terça-feira (14), funcionários das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), devotos e religiosos celebraram a notícia da canonização.
Um dos atos simbólicos para comemorar foi realizado por funcionários dos mais diversos setores da instituição, desde jovens aprendizes até gestores, que deram as mãos e promoveram um abraço ao redor do edifício, na Cidade Baixa, para comemorar a data. Em seguida, foi realizada uma Missa em Ação de Graças pela Canonização, no próprio Santuário da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.
Uma das funcionárias que participou da ação, a assistente social Andrea Lima, trabalha na Osid há 19 anos. Ela conta que ficou emocionada com a notícia e que fez questão de homenagear a beata.
“Já esperávamos por esse momento. É uma emoção imensa. Eu, pessoalmente, creio em Irmã Dulce e acho que esse momento é um presente, um reconhecimento da trajetória dela, que justifica todo esse processo”, opina.  
A assistente social, que é uma das coordenadoras do Centro de Convivência Irmã Dulce dos Pobres, parte responsável da instituição por realizar trabalhos com pessoas em vulnerabilidade e em situação de rua, se diz feliz por poder fazer bem ao próximo, assim como pregava a própria Irmã Dulce.
“Eu me sinto um grão de areia. As pessoas em situação de vulnerabilidade olham para a gente com muita esperança. E é o nome dela que a gente carrega”, diz.
Uma das beneficiadas pelo trabalho iniciado pela religiosa é a aposentada Lourdes Dourado, 82. A idosa, que morava no Rio de Janeiro e se mudou para Salvador recentemente, atualmente faz tratamento na Osid para um problema auditivo. Grata, ela faz questão de passar no santuário após cada consulta para agradecer à freira. ”Sou muito devota dela, desde antes de morar aqui. Ela fez muito para os pobres, acho que nunca mais vai existir alguém como Irmã Dulce”, conta.
Abraço marcou celebração pelo anúncio da canonização
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)
Amizade
Quem também tem um carinho muito grande pela beata é a freira Olivia Lucinda, 68, que conviveu com Irmã Dulce por 16 anos.
“A maior graça que recebi em toda minha vida foi poder ter convivido com ela. Sou devota e a amo muito”, declarou ela, que trabalha na Osid desde 1976. 
Irmã Olivia, que guarda boas recordações da amiga, conta que Irmã Dulce sempre saía em defesa dos mais necessitados. “Uma vez ela me pediu para pegar duas cadeiras de rodas para dois deficientes que chegaram. O prédio era novo e só tinha duas cadeiras por pavilhão, ia faltar. Eu questionei e ela disse: traga e, depois, Deus manda outra. Eu fiz, tirei as cadeiras dos setores, e, no momento que os doentes sentaram, estacionou um carro com duas cadeiras novas. Aí ela me disse: 'Nunca negue aos pobres'. É uma das lembranças que tenho”, contou emocionada.
Irmã Olívia fala de amizade com Irmã Dulce (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)
Para Irmã Olivia, admirar Irmã Dulce não basta. A beata acredita que é necessário seguir o exemplo e também fazer bem ao próximo. “Não adianta só achar bonito e colocar no altar”, avisa a religiosa, que lembra ainda que, no convento, Irmã Dulce tinha costume de entregar todos os cobertores do lugar a desabrigados, para que não sofressem com o frio.
"Um dia, quando não havia mais cobertores para doar, ela tirou os lençóis da própria cama e entregou a um necessitado. Ela nunca negou nada, e nunca nada faltou, até hoje não falta”, conta Olívia. 
Milagre
segundo milagre atribuído a Irmã Dulce foi reconhecido nesta segunda-feira (13), pelo Papa Francisco. Era o último passo necessário para canonizar a Bem-Aventurada Dulce dos Pobres - como é oficialmente chamada a religiosa desde a sua beatificação, em 2011, quando foi reconhecido o primeiro milagre.
Dessa vez, um homem cego por 14 anos voltou a enxergar após pedir intervenção de Irmã Dulce. Os detalhes da história ainda permanecem em sigilo até que o processo seja concluído e a beata seja inscrita no livro dos Santos.
Ao CORREIO, o médico Sandro Barral, um dos profissionais que analisou o caso para dar o parecer de que a ciência não tem explicações para a mudança de quadro do paciente de aproximadamente 50 anos, revelou alguns detalhes da história.
"Trata-se de alguém que tinha adaptado sua vida a uma nova condição. Ele, antes, trabalhava com informática e mudou de profissão por ter uma doença que deteriorou sua visão. Aprendeu braile, usava guia, frequentava instituições de apoio a cegos. Um cão-guia estava sendo treinado para ser entregue a ele, mas ele não precisou receber, porque hoje enxerga", conta. 
Para Barral, a melhora do paciente não pode ser explicada pela ciência. "É uma unanimidade entre os médicos. Os exames dele são de alguém que não enxerga", detalhou ele, que explicou que até hoje os laudos apontam a limitação do paciente, embora um exame físico ateste que ele realmente voltou a enxergar.
Processo
O parecer médico é, inclusive, o primeiro passo para que um milagre seja reconhecido como verdadeiro. Em seguida, o caso é analisado por teólogos e por uma comissão de cardeais.
O Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, explicou que os relatos de graças concedidas com a intervenção de Irmã Dulce foram muitos desde que o primeiro milagre foi reconhecido. “Desde a canonização houve muito anúncio de cura, de milagres, mas sem provas, sem exames médicos anteriores para poder se comparar, ou até situações que não dava para comprovar. Esse milagre foi mais consistente”, contou. 
Irmã Dulce se tornará santa ainda este ano (Foto: Arquivo CORREIO)
No caso do paciente cego, a graça ocorreu em 2014. No entanto, foi preciso esperar o prazo de cinco anos para que um dos critérios utilizados pela igreja católica fosse atingido. Isso porque, para ser considerado um milagre, o fato deve ser duradouro, instantâneo, e não uma melhora progressiva, além de ser inexplicável do ponto de vista científico.
As etapas necessárias para tornar Irmã Dulce uma santa, duraram 27 anos desde a sua morte, em 1992. É o terceiro processo mais rápido da história, atrás apenas dos processos do Papa João Paulo II - que durou 9 anos - e de Madre Teresa de Calcutá - 19 anos. 
Para que a Bem-Aventurada Dulce dos Pobres passe a ser conhecida como Santa Dulce dos Pobres, é necessário que o Papa Francisco marque o chamado consistório. Nesse dia, a autoridade máxima da Igreja Católica vai proclamar oficialmente a inclusão da religiosa entre os santos da Igreja e marcará a data para que seja feita a cerimônia, que deve ocorrer ainda no segundo semestre deste ano, no Vaticano, na Itália.  
Para Dom Murilo Kriger, ter uma santa brasileira é de grande representatividade. “Fica a lição para que acreditemos que não há limites para a santidade. Qualquer pessoa pode ser santa, basta que ame. Ela vem nos mostrar que a santidade está ao nosso alcance. Durante muitos séculos nós, no Brasil, só conhecíamos santos do passado e estrangeiros. Hoje, temos Irmã Dulce, que viveu nessa cidade e andou por essas ruas”, avalia.Fonte/Correio24horas.

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