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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Morre o fotógrafo Cafi, autor de mais de 300 capas de disco da MPB

Pernambucano sofreu infarto durante virada do ano no Arpoador
RIO - O fotógrafo e artista plástico Carlos Filho, mais conhecido como Cafi, morreu na madrugada desta terça-feira no Rio de Janeiro, aos 68 anos. Autor de mais de 300 capas de discos da música brasileira, Cafi sofreu um infarto durante a virada do ano no Arpoador. O fotógrafo foi levado ao hospital Miguel Couto, mas não resistiu.
Nascido no Recife em 1950, Cafi estudou gravura e pintura na Escolinha de Arte do Brasil. Após se mudar para o Rio, ainda na adolescência, começou a pintar cenas do Nordeste. O interesse pela fotografia surgiu após receber de presente das irmãs uma câmera, para que fotografasse seus quadros.
— Fotografar era um encontro com o outro, porque uma foto nunca é só de quem tem a câmera, é também de quem está do outro lado. Pintar era uma experiência solitária. E a fotografia também era uma maneira de trazer Recife para o Rio. Ia para lá, fotografava e voltava. Coisas como o maracatu, que registrei por 40 anos e que, quando comecei, ninguém no Recife sabia o que era — contou Cafi em entrevista ao GLOBO em 2011.
A capa do disco "Clube da Esquina", de 1972, é um dos trabalhos mais conhecidos de Cafi Foto: Divulgação
Entre as décadas de 1970 e 1990, Cafi especializou-se em fotografar capas de disco. A primeira foi para Marlene, a convite de Hermínio Bello de Carvalho. Cafi assinou a “vitrine” de “É a maior” (1970) com Carlos Filho. É dele a icônica capa do disco "Clube da esquina", de 1972, fruto da parceria de Milton Nascimento com Lô Borges. Ainda para Milton Nascimento, fez as capas de  "Geraes" (1976), "Minas" (1975) e "Milagre dos Peixes" (1973).
Outro projeto icônico é a capa do disco solo de Lô Borges de 1972, que é mais conhecido como
Outro projeto icônico é a capa do disco solo de Lô Borges de 1972, que é mais conhecido como "disco do tênis" Foto: Divulgação
Outro marco é a capa para o disco solo de Lô Borges de 1972, que ficou conhecido como "o disco do tênis". Sobre ela, Cafi contava que chegou a levar uma bronca do diretor artístico da gravadora Odeon. "Levei um pito do genial Milton Moreira pois já tinha feito (a capa do) 'Clube da esquina', que não tinha letreiro (o nome) dos artistas (...) Daí cheguei com os tênis e ele disse que eu era maluco, porque além de tudo eram tênis velhos. Hoje é a capa do disco do tênis".
Cafi também trabalhou com Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Azevedo, Nana Caymmi, Jards Macalé e Alceu Valença, entre outros.

Fundador do Nuvem Cigana

Cafi ainda foi um dos fundadores do coletivo Nuvem Cigana, que renovou a poesia nos anos 1970. Além disso, foi parte importante da história do Circo Voador, com participação no jornal Expresso Voador e como fundador galeria de artes do circo, a Galeria das Artes.
"Minas", de 1975, é fruto de outra colaboração com Milton Nascimento Foto: Divulgação
A obra de Cafi é tema do documentário inédito "Salve o prazer", do cineasta pernambucano Lírio Ferreira, que tem roteiro do próprio fotógrafo. Entre os últimos trabalhos de Cafi, está o ensaio “Religiosidade profana no asfalto do Rio de Janeiro”, com imagens do carnaval de rua.
Disco 'Cinco sentidos', de Alceu Valença Foto: Divulgação
Disco 'Cinco sentidos', de Alceu Valença Foto: Divulgação
Para a coreógrafa Deborah Colker, que foi casada com Cafi por dez anos, o fotógrafo era “um gigante”.
— Eu sou a pessoa artística que sou porque tive a sorte desse encontro, de ter sido casada com ele. Era um cara que percebia uma situação e a transformava numa potência criativa. Sair com o Cafi para dar um passeio na esquina era perceber o mundo de uma outra maneira.  Ele foi um dos primeiros a perceber a força do maracatu no interior de Pernambuco. E fez tantas capas de disco sensacionais. A fotografia dele determinou uma época e o movimento musical de Minas Gerais — recordou Deborah, que trabalhou ao lado de  Cafi pela última vez no espetáculo "Cão sem plumas", adaptação do poema homônimo do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), em 2017.
Filho de Cafi e Deborah, o artista Miguel Colker define o pai como um "poeta visual".
— Um poeta visual que não gostava só de ver as coisas, mas de viver. Quem conhece meu pai sabe que ele sempre viveu intensamente. Também sempre soube transitar muito bem em diferentes tipos de arte. Teve um trabalho de grande valor com capas de disco, e depois com exposições — afirmou.
Foto de Cafi de coreografia da Cia. Dani Lima Foto: Cafi / Divulgação
Foto de Cafi de coreografia da Cia. Dani Lima Foto: Cafi / Divulgação
Para o fotógrafo e colunista do GLOBO Léo Aversa, Cafi foi um "mestre" para a sua geração.
— Não era apenas um executor de ideias. Ele ouvia o disco e pensava em como traduzir aquilo em imagens. Como a história daqueles dois meninos da capa do "Clube da esquina", não existe exemplo melhor. Não era só uma coisa de foto bonita, sempre tinha um conceito — relembrou Aversa, que estava trabalhando com Cafi na capa do próximo disco de Jards Macalé .
"Torre de Babel", obra de Cafi exibida na exposição "O fio da meada", em 2011 Foto: Divulgação
— Anteontem (dia 30) mesmo ele me mandou duas ideias que teve. Éramos vizinhos, Jards, ele e eu, então quando fui convidado para fazer esta capa tive a ideia de chamá-lo, porque é minha maior referência para esse tipo de trabalho. Foi uma honra, porque além de tudo ele era uma pessoa fantástica.Fonte/oglobo.com

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