terça-feira, 20 de novembro de 2018

Homenagens a Zumbi dos Palmares marcam Dia da Consciência Negra em Salvador

Movimentos se reúnem para combater racismo e pregar igualdade
Catarinense, professor e militante do movimento negro, Marcos Caneta veio pela quarta vez a Salvador e decidiu acompanhar a 10º edição da lavagem da estátua de Zumbi dos Palmares, na Praça da Sé, que marca o início das homenagens ao Dia da Consciência Negra em Salvador.
“Essa data é uma tentativa de reencontro da história do país, porque não representa somente uma referência a um líder negro assassinado, mas, sim, a ressignificação da história do povo negro brasileiro, responsável pela construção deste país, submetido a uma escravidão traumática e desumana”, disse ele em referência ao 20 de novembro.Para Marcos, é incompreensível a data não ser feriado na capital baiana.

“Eu sou negro e venho de uma cidade onde os negros são invisíveis, de fato, minorias, em números absolutos. Mas, em Salvador essa realidade é outra. Aqui é uma das cidades do mundo com maior população negra”, declarou.
O professor também destacou que, no caso de Salvador, a informalidade da população negra é ainda mais evidente do que em outras partes do país. “Eles [os negros] foram os responsáveis pelo crescimento econômico do Brasil, mas não colheram os frutos deste trabalho. Aqui essa desigualdade ainda é maior e tem mais destaque do que em outras cidades”, afirmou.
A 10º da lavagem da estátua de Zumbi dos Palmares teve como tema “"Rebele-se contra as opressões – Moa do Katendê vive!", como uma homenagem também ao capoeirista e compositor morto no dia 8 de outubro na localidade do Dique Pequeno, em Salvador. Além da lembrança de Moa, as dezenas de pessoas, vestidas de branco e amarelo, lembraram da memória da vereadora Marielle Franco, assassinada em março deste ano no Rio de Janeiro.
O evento foi realizado pela União de Negros pela Igualdade (Unegro), em parceria com organizações de movimentos sociais, e contou com o apoio da Associação Classista de Educação e Esporte da Bahia (ACEB) e da Secretaria de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Estado da Bahia (Setre).
Para a presidente do Unegro, Ângela Guimarães, “o dia de hoje é uma reafirmação da força do povo negro, que é maioria na população baiana e brasileira e, mesmo assim, sofre com todo o preconceito social e institucional”. Ela ainda acrescentou que, mesmo após 130 anos da assinatura da Lei Áurea, o povo negro não se libertou, porque ainda sofre com o preconceito e a desigualdade.
“Esse evento, já na décima edição, é uma conquista do movimento negro, porque, se observarmos direito, em nossa cidade, são poucas as menções, nomes de ruas e praças que reverenciam a memória de pessoas negras que ajudaram a construir o país. É como se a população fosse invisível”, disse.
Ângela Guimarães também mencionou a força do movimento em 2018. “Agora, mais do que nunca, todos os povos precisam se unir, não só os negros, porque são tempos de intolerância e um conservadorismo jamais vistos”.
A secretária de Promoção da Igualdade Racial (SEPROMI), Fabya Reis, que também compareceu ao evento, declarou que “a luta do povo negro é diária, assim como as conquistas”. Para a comandante da pasta, “é preciso continuar buscando o reconhecimento dos direitos da população negra e a criação da Lei 12.519/13 é apenas um pedaço dessa conquista”.
E teve povo de axé também na caminhada. A produtora cultural e membro do Afoxé Akará, Natali Conceição, afirmou “a importância do evento está na própria homenagem a Zumbi dos Palmares, que foi um dos principais representantes de nossa luta, que é de conscientizar o povo quanto a nossa matriz [africana]”.
Os festejos em homenagem a Zumbi dos Palmares e ao Dia da Consciência Negra continuam durante toda esta terça-feira, com eventos em diversos pontos de Salvador e uma caminhada do Campo Grande até a Praça Castro Alves.
Desproporção
Apesar da intensa agenda de eventos que marcam o dia 20 de novembro, principalmente em Salvador, as reflexões sobre o combate ao racismo vão além da data que marca a morte de Zumbi dos Palmares.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na última PNAD Contínua, 80% da população da capital baiana é composta por pretos e pardos, ou seja, por negros, somando 2,4 milhões de pessoas. Esse número dá à cidade o posto de capital negra do país.
Apenas como comparação, a média nacional da população negra no país é de 55,4%, de acordo com o órgão. No entanto, mesmo sendo maioria, a população negra de Salvador ocupa a primeira colocação em outro fator: o da desigualdade salarial.
Dados da PNAD apontam que, na média dos três trimestres de 2018, o rendimento dos trabalhadores que se declararam de cor preta ficou em R$ 1.640 na capital baiana, o equivalente a 1/3 do que ganhavam os trabalhadores que se declararam brancos - R$ 4.969. Essa é a maior diferença salarial entre as capitais brasileiras.
No cenário nacional, no mesmo período, os trabalhadores de cor preta tiveram rendimento médio de R$ 1.608, pouco mais da metade do que ganharam os de cor branca, R$ 2.891. Segundo o IBGE, os resultados de 2018 bateram o recorde da série histórica salarial desde 2012.
*Sob a supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro.Fonte/correio24horas

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