segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Aos 100 anos, Avenida Sete preserva parte da história e cultura de Salvadorn

Ladeira da Barra em imagem antiga (Foto: Arquivo Municipal/Fundação Gregório de Matos)Passagem do zepelin por Salvador na Praça Castro Alves (Foto: Arquivo Municipal/Fundação Gregório de Matos )
As pedras portuguesas e os casarões antigos podem ser vistos em várias partes, reforçando a herança lusitana deixada no Brasil. "A calçada está esburacada. Tem de recolocar as pedras e não mudar. Tudo isso é nosso passado vivo. 
Mexer em algo é um crime, é como matar a nossa própria história", opina o aposentado Luiz Carlos Brandão, que mora na avenida desde criança. Aos 76 anos de idade, tem saudades do passado. "A gente tinha mais tranqulidade, conhecia toda a vizinhança. Hoje, a gente não sabe quem passa. 
Não pode sair de casa com um relógio, pois os ladrões levam. Também não havia tanto carro, tanto barulho. O tempo e o progresso levaram a paz, mas amo este lugar. Não penso em me mudar", compara.
Marieta Nunes Costa é mineira e se mudou para a Bahia no fim dos anos 80. Os pais dela abriram um pequeno estabelecimento comercial na região, que agora é administrado por Marieta. 
"Tudo que tenho na vida agradeço a este lugar que nos acolheu. Graças à Avenida Sete consegui formar família, educar meus filhos, ter uma casa", conta. Para ela, desde quando chegou, a avenida pouco relativamente mudou. "Sempre foi essa coisa agitada, típica de comércio de rua. A diferença é que agora temos engarrafamento, que antes não tinha, e chegou muito mais ambulante", destaca.
relógio de s. pedro - antiga. (Foto: Arquivo Municipal/Fundação Gregório de Matos)Ladeira de S. Bento - antiga. (Foto: Arquivo Municipal/Fundação Gregório de Matos)

Para Lucas de Macedo, outro comerciante da área, a desorganização dos ambulantes e do trânsito afastam a clientela. "Nossos preços são os melhores da cidade, mas muita gente não está disposta a enfrentar transtornos para vir comprar aqui ", opina. Apesar disso, ele não acredita que a Avenida Sete esteja em decadência. "As pessoas têm o costume de achar que o que tem valor é o que é ocupado pelos ricos, mas não é verdade. Não existe comércio mais pulsante em Salvador do que o nosso", ressalta.
Segundo Charles Santana, pós-doutor e coordenador do curso de História da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), especialista em História de Cidades, o que mantém a Avenida Sete viva são as suas raízes populares. "Ela não sucumbiu como outras ruas aqui da região, como a Rua Chile, onde predominava o comércio elitista. A Avenida Sete, embora habitada por ricos, sempre teve o comércio popular. A Praça Castro Alves é do povo porque é uma extensão da sua avenida", afirma.
De acordo com ele, ainda na primeira metade dos anos 20, as primeiras lojas se instalaram na Avenida Sete. O auge do comércio na área foi nos anos 60. Na segunda metade da década de 70, com a abertura do antigo Shopping Iguatemi, as grandes lojas migraram de região, ficando apenas as menores.
Charles menciona outro exemplo de que a Avenida Sete é do povo: o carnaval. "A festa se instala ali por vários motivos. É a via mais larga e mais extensa da cidade, até então. O povo precisa de espaço para a folia. Além disso, é uma região central, como um todo, e fica mais prático para as pessoas se dirigirem", conta.
História

Idealizada pelo então governador da Bahia, J.J. Seabra, a obra fez parte de um plano de remodelação urbana no núcleo histórico de Salvador. É considerada a mais importante intervenção viária realizada na capital baiana, na primeira metade do século XX.
Charles Santana explica que a justificativa para a construção era a necessidade de interligar a região central, onde se concentravam as empresas, o comércio, às áreas residenciais da aristocracia, como Graça, Corredor da Vitória e Barra, que até hoje são consideradas nobres. Conforme ele, o que se pretendia era facilitar a locomoção dos burgueses pela cidade.
"Foi um momento em que se pensava em uma remodelação da cidade, no sentido de torná-la mais bonita, moderna, funcional e técnica, dando acesso aos bondes elétricos que surgiam a partir da primeira década do século", afirma o historiador. Além disso, acrescenta, havia uma ânsia por organizar as condições sanitárias da cidade, que registrava casos de doenças que causavam grande preocupação na época, como a febre espanhola.
De acordo com Charles, as obras trouxeram efeitos "traumáticos" para a antiga Salvador, por ter seguido os moldes do "urbanismo destruidor" parisiense de Georges-Eugène Haussmann, que destruiu várias ruas da capital francesa para impedir o crescimento de movimentos populares, e da reforma do centro do Rio de Janeiro ocorrida em 1902.
Para abrir a avenida e alargar outras vias no entorno, foram derrubados casarões antigos, quarteirões inteiros, provocando perdas irreparáveis de patrimônios dos séculos XVIII e XIX, como a antiga Igreja de São Pedro (onde está atualmente o relógio de São Pedro), uma lateral do Senado estadual, que teve sua ala esquerda demolida para a abertura de uma rua (posteriormente o imóvel passou a abrigar o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia), entre muitos outros. "O Mosteiro de São Bento, que existe até hoje, também teria sido derrubado. Os religiosos se uniram contra a medida e o movimento ganharam apoio popular", detalha Charles.
Fonte/G1.com

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