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Um mês após 12 mortes no Cabula, testemunhas não aparecem: 'Medo'

Região de Vila Moisés, no Cabula, que receberá reconstituição da ação policial (Foto: Imagens / TV Bahia)A ação policial ocorrida no dia 6 de fevereiro deste ano, na Vila Moisés, no bairro do Cabula, em Salvador, que deixou 12 mortos e cinco feridos - entre eles, um policial, atingido por um tiro de raspão na cabeça - completa um mês nesta sexta-feira (6). Neste período, órgãos como Defensoria Pública do Estado e Ministério Público da Bahia (MP-BA) informaram que as testemunhas 'in loco', aquelas que estavam no local durante a ação, não se apresentaram e nem registraram queixas sobre o caso.
Até o dia 4 de março, apenas os noves policias envolvidos e os sobreviventes da ação policial são personagens que testemunharam a ação 'in loco'. Moradores da Vila Moisés prestaram denúncias anônimas informando que traficantes da região impuseram a determinação de que ninguém da comunidade fale com a polícia a respeito do assunto.
Troica de tiros no Cabula Salvador Bahia (Foto: Reprodução/TV Bahia)
Troica de tiros no Cabula Salvador Bahia (Foto: Reprodução/TV Bahia)"Não acredito que ninguém tenha visto. O local [onde ocorreu a ação] tem muitas residências. Fui ao local e encontrei janelas e portas fechadas. As pessoas estão com medo. Queria pedir para pessoas que viram, que nos procure e fale sobre o crime. Nem precisa ir à polícia. Basta aparecer aqui no MP-BA, que a identidade será preservada", falou o promotor Davi Gallo, que atua no caso frente ao MP-BA.O comportamento dos moradores da localidade é confirmado pelo coordenador da campanha "Reaja ou será morto (a)", Hamilton Borges.
"Elas estão com medo por conta das ameaças das constantes 'batidas' [policiais] e porque também elas não acreditam nas instituições da Bahia. Nós não temos como aceitar as fragilidades dos programas de proteção. Vamos apresentar as testemunhas em um momento certo, depois que garantirmos a segurança delas e a nossa junto ao Ministério Público Federal (MPF). As pessoas estão vivendo normalmente seu cotidiano, mas ninguém sai à noite. O problema central disso é a política de segurança", relata.
"Do nosso ponto de vista nós já fizemos o que podíamos. Já demos visibilidade ao caso, e estamos esperando o prazo legal para que a polícia apresente as provas de um confronto. Precisamos dizer ao governador que não estamos em uma guerra", completa Borges.
Ainda de acordo com ele, como forma de chamar atenção para o caso, foi definido em uma reunião realizada na noite de quinta-feira (5) que o grupo, junto aos moradores, farão uma alusão às 12 mortes em um tributo ao "Negro Blul", jovem morto por policiais há nove anos nas proximidades do Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, na capital baiana.
O evento será na Vila Moisés, no sábado (7), às 10h. "Vamos fazer atividades culturais, começando com um diálogo religioso que terá a participação de budistas, evangélicos, católicos e grupos do candomblé. Terá também música com cantores de rap, teatro com o Bando de teatro Olodum e outras manifestações", disse.
Reconstituição
Para ajudar a elucidar o ocorrido, uma reconstituição da ação dos policiais será realizada na localidade. Conforme o promotor, a perspectiva é de que a simulação das versões dos policiais, suspeitos e testemunhas ocorra em um prazo máximo de 15 dias.
Apesar dos avanços das investigações, Davi Gallo acredita que o resultado do inquérito será prorrogado, principalmente com a definição da realização da reconstituição da ação policial. Ainda segundo o promotor, o MP-BA ainda tem esperanças de que testemunhas oculares possam aparecer para oferecer informações sobre o caso.
Ele também conta que mais de 50 pessoas já foram ouvidas desde a ocorrência policial. Cerca de 98% das pessoas que deveriam ser ouvidas já prestaram depoimento, e o Departamento de Polícia Técnica (DPT) já garantiu ao MP-BA que as perícias serão entregues dentro do prazo.
Já a Defensoria Pública do Estado da Bahia informou que o órgão está participando das reuniões e dos demais eventos referentes à ação policial no Cabula, mas ainda não participou de qualquer ação efetiva. Além disso, nenhum familiar das vítimas procurou a defensoria para ser inserido na investigação de um caso específico. De acordo com o órgão, para que a denúncia seja registrada é necessário que o público procure a defensoria.Audiência
Em 26 de fevereiro, foi realizada pela Ordem dos Advogados do Brasil na Bahia (OAB-BA) uma audiência pública, para debater a ação dos PMs, a descoberta de que 16 vítimas da ação não tinham passagens pela polícia e ainserção de promotores do MP-BA para atuar em conjunto no inquérito, que também é realizado pelas polícias Civil e Militar.
A Polícia Civil informou que os detalhes do andamento das investigações serão preservados, sob a justificativa de garantir a integridade das testemunhas e a isenção do órgão nas apurações.
Chefes de polícias na coletiva sobre a chacina no Cabula, em Salvador (Foto: Henrique Mendes/G1 BA)Já a PM contou que as investigações foram instauradas no dia da ação policial e têm o prazo legal de 40 dias para serem concluídas, sob a possibilidade de prorrogação para mais 20 dias.
Com relação aos sobreviventes, de acordo com a polícia, Luís Alberto de Jesus Filho, de 28 anos, baleado na ação, foi socorrido para o Hospital do Subúrbio e teve mandado de prisão cumprido. Ele ficou custodiado na unidade hospitalar até o dia 14 de fevereiro, segundo informações da unidade de saúde, mas não há detalhes se ele continua preso.
A outra vítima localizada é Diego Santos Silva. Ele foi levado para o Hospital São Rafael, mas foi liberado antes de ser ouvido pela polícia.

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